Meu Pensamento – L.L. Zamenhof

Certa vez ao campo eu fora
Numa noite de luar.
Linda jovem cismadora
Docemente ouvi cantar.

Era um canto de esperança,
De venturas e de amor;
Ressurgia-me a lembrança
De profunda e antiga dor.

— “Que! diz ela. Tu dormias?
Tão calado agora estás…
Que saudades tão sombrias
O meu canto assim te traz?”

…Coração, resiste ainda,
Não te fica bem chorar
Junto de uma jovem linda
Numa noite de luar.

Teus pesares e tormentos
Já se foram, coração;
Deixa escuros pensamentos
Que tão longe, longe vão.

Entristece-te a saudade
De outros tempos: eu bem sei;
Choras hoje a mocidade
Que ao dever sacrifiquei.

Quantas vezes de alegria
Me cercavam; no meu ser
Chama ardente renascia…
…Eu quisera assim viver.

Mas se a dura, ingrata sorte,
Contra mim constante for,
Bem melhor parece a morte
Na esperança… e longe a dor.

Tradução do Esperanto para o Português do poema Mia Penso, realizada por J. B. de Mello e Souza, e publicada na revista Brazila Esperantisto (Esperantista Brasileiro)(números 1-2-3, janeiro-março de 1918, pág. 1).

A Esperança – L.L. Zamenhof

Surge agora um novo sentimento,
Pelo mundo corre um forte brado!
Que nas asas de um propício vento,
Pelo mundo seja divulgado.

Esse ideal jamais verá na Terra
Rubro sangue ou negra tirania;
Às nações eternamente em guerra
Só promete paz e harmonia.

Sob o santo emblema da Esperança
Vinde vós, ó nobres paladinos,
E mui breve o mundo a paz alcança,
Da concórdia ouvindo alegres hinos.

Se há barreiras, fortes, seculares,
Entre os povos sempre divididos,
Cairão da guerra esses altares
Pelo amor somente destruídos.

Quando houver o mútuo entendimento
Da Babel caindo o mal profundo,
Surgirá de tal congraçamento
Uma só família sobre o mundo.

Da Esperança o exército disperso,
Pugnará em luta gloriosa,
Até quando a Paz sobre o Universo
Dominar p’ra sempre vitoriosa!

Tradução do Esperanto para o Português do poema La Espero, realizada por J. B. de Mello e Souza, e publicada um mês após a morte de Zamenhof, na revista Brazila Esperantisto (Esperantista Brasileiro)(números 3-4-5, março-maio de 1917, pág. 6).