UM POEMA

Este poema podia ser até uma língua lambendo um jacaré.
Um planeta embalado em folhas de jornal.
Padres com dreadlocks e camisas de caveira.
Pirarucus de salto alto, vestidos em rosa pink.
Por que não sorvete de tartaruga e doce de almôndegas?
Podia ser uma mulher com dez pernas
e um menino com dois olhos na nuca.
Eu queria que fosse uma lâmpada cantando ópera,
um mosquito criando baratas em cativeiro
ou qualquer outra coisa com um objetivo mais profundo.
Talvez um gigante domador de anões,
um dragão que tosa ovelhas,
um vulcão que tem uma geladeira cheia de refrigerantes.
Podia ser qualquer coisa.
Por isso é um poema.

SIGNIFICADOS

Desconfio que o verso perdeu o nexo.
Há paredes moles subindo pelas escadas.
E o que isso quer dizer? Nada.
Sinto que braços sem ventres e ventres sem cabeças
pendem pesados de árvores,
num pomar com pés de caju e olhos-d’água.
Tenho uma impressão muito forte,
forte como um dedo numa identidade;
uma impressão que há uma verdade circular
circulando nas cabeças meio redondas e meio ovais.
O que foi que aconteceu à humanidade?
Será que como eu já comeu o sentido?
É quase certo que existem lábios fechados pronunciando sensações
como um zumbido de tempos comidos.
Desconfio que meu corpo está em alguns dos versos acima.
Há um clima
de autocanibalismo que primeiro come a língua
e depois come como eu todas as combinações do alfabeto.
Que sentido haverá se eu disser
que o verso perdeu a fé
na poesia?
Há uma azia que bem podia ser um continente,
se eu não tivesse perdido os sons, as grafias e os sentidos.

HUMANIDADE

Último ultimato sem que alguém possa ouvir.
Onde encontrarei terreno fértil?
É terra arrasada!
Foi saqueada em pleno meio-dia.
Moedas enferrujadas cobrem o chão,
porque foi o que restou.
O ouro resplandece nos salões dos conquistadores.
A língua que falava foi cortada e queimada.
Onde encontrarei um ser vivo que expresse a ideia da dor?
Troncos partidos choram o sentimento de estarem quebrados.
Os jardins estão em chamas.
Vasos com labaredas falantes ornamentam as entradas.
Umbrais de ossos rangem em boas-vindas.
Maldições foram registradas com sangue
sobre os muros das vielas.
Onde encontrarei água para alimentar uma semente?
É terra acabada!
Uma estrela tremulou sob o teto,
confabulou sobre ideias de mudanças.
Mas vieram os saqueadores e violentaram a feminilidade.
Porque a força mandava e era obedecida.
Quem com flores poderá derrubar uma torre de marfim?
Há ideias não-potáveis escorrendo azedas pelo chão.
Uma multidão gritava que havia vida,
mas eram lembranças esparsas.
Ventos miasmáticos e sem consistência.
Há cães sem salvação ladrando em desespero,
lambendo as feridas incuráveis.
Há pedras que falam e são ouvidas.
Há dor, mas não há vida.
Porque é terra humana,
da raça que demorou reagir.
É um bola de terra que não tem quem possa dar nome.
Vieram os saqueadores e não houve mais saída.
Não, não há mais vida.

PRETER IDEALISMOJ (traduzido do Esperanto)

Pés que pisam em bombons.
A cada passo, a sola toca um abismo.
Solas de pés que acariciam pedaços de vidro aguçados.
À cada carícia, a pele se torna mais rude.
Peles de solas de pés que se ligam a outras peles
para juntos construírem membranas.
Verdades mansas que voam quiropteramente
e, com uma mordida, um mundo arremessam ao chão.
Dentes de cacau que mastigam vítreos bombons.
Abismos da lonjura de um corpo e solas da amplitude da face da terra.
Carícias de pontas picantes e vaidosos pedaços de virtude delicados como vidro.
Podem bombas de bombons abrirem bons abismos?

DERRETIMENTO HUMANO

O mundo escorria.
Por entre os dedos, escorria aquoso.
Palavras com braços distendidos orbitavam frases sem verbos.
Havia algo desnudo e sem pudor bailando no escuro.
Batidas de tambores eram corações sem sangue.
Meteoros que passavam gritando eram advertências ocas
de velhas moscas moucas
de tanto ouvir o próprio zumbido incontestável.
Vi, e a imagem me horrorizou,
que, em inomináveis curvas de cosmos abaulados,
verbos desprendidos de suas frases originais
pululavam e, em pulos, brincavam com a existência universal.
Havia pontos de luzes que pulsavam pusilânimes.
Havia pus no amarelo que brilhava.
Eram máculas num vácuo palpado por mãos calosas.
Vi que o líquido do mundo, por mim, conhecido
se desconhecia quando desaguava
em águas mais amplas, turvas e turbulentas.
Não havia nome nem memória,
porque as palavras estavam órfãs de verbos rebelados.
Tudo se misturava e se perdia,
se refazia e se repetia sem nexo.
E eu não me vi refletido na massa sem forma.
Meu nome tinha se rasgado em anagramas,
se registrado em papéis de outras pessoas em outras realidades.
Exigi que se conservasse minha individualidade.
Mas o mundo se derretia e eu já era água.
Eu era uma partícula de um mundo aquoso entre dedos.