NUMA TARDE

Voei sobre a amplidão da humanidade
e vi você sentado numa varanda.
Fumo, fumaça e fogo.
Havia um olho arregalado no alto do céu.
Senti cheiro de coisa queimada.
Eram doze horas nos relógios de um milhão de pessoas.
Vi um milhão de humanos pensarem coisas semelhantes.
O que você pensava?
Voei sobre uma multidão de carne em movimento.
Gritei que estavam devorando um humano na praça.
Me responderam que sim,
os tempos áureos do canibalismo estavam de volta.
Por que você estava sentado na varanda?
Voei sobre a amplidão dos que vivem e dos que morreram.
Não encontrei o seu nome listado.
Quando você nasceu?
Sinto que há uma lacuna em minha memória.
Há espaços vazios no universo.
Sei agora que mãos manipulam uma máquina no vácuo,
sem que eu ouça o som das engrenagens.
Para aplacar minha incompreensão,
quis destruir todas as varandas que existem.
O que você fazia lá?
Corpos humanos se mexiam em círculos concêntricos.
Dedos e dardos.
Vi você na tarde da última varanda,
sentado na sombra de telhas vermelhas.
O que você pensava?

POEMA CABELUDO

Tem um cabelo nesse poema
e um poema nessa sopa.
Vou devorar a sopa até me engasgar.
Um cabelo duro como arame.
E o significado? Estava na sopa.
Era um cabelo ou um maço?
Morreu entalado tentando engolir o mundo.
Meu filho, ninguém deve tentar mastigar água.
Os dentes se batem e se quebram.
Pior que comer cabelo é comer a si mesmo.
Canibalismos suicidas que mastigam primeiro o mindim.
Tem um dente nessa mordida.
Comeram a sopa.
Digeriram o poema.
O cabelo ficou preso pelo meio.

UM NÚMERO

Tem um número no meio do universo.
Parece que cresce. Parece que decresce.
Eu não sei. Não me disseram.
Sinto que devia saber. Deviam ter me contado.
E agora?
Talvez indique a quantidade dos que existiram.
Ou dos que existirão.
É um número órfão de sentido.
Foi órfão no segundo que passou.
Temo que já tenham dado um significado
e agora não há nada a fazer a não ser aceitar o que foi posto.
Eu devia ter nomeado os bois.
Essas vacas criam seus bezerros para serem garanhões.
Putas desse universo desavergonhado.
Eu devia ter comido todos no almoço.
Nunca fui vegetariano.
Defendi os animais porque sou um desgraçado demagogo.
De qualquer forma,
seria um número comido e mastigado,
bem bonitinho para ser compreendido.
Esse número tem a essência de veneráveis fluídos venéreos.
Não havia camisinha quando deus ejaculou a Terra.
Por que esse número ainda está lá?
Pra ser comido de novo?
Vacas desse universo amamentado de ar, água e fogo.
Só como se for macho.
Fui o primeiro gay da criação divina.
Transei com deus e dei dicas de como escrever a bíblia.
Eu devia ter revisado levíticos.
Diabos carreguem esse velho babaca pederasta
que come os novinhos e depois prega santidade
a um povo morrendo de fome no deserto.
Tem um numero no meio do universo.
E agora, o que fazemos?

UM POEMA

Este poema podia ser até uma língua lambendo um jacaré.
Um planeta embalado em folhas de jornal.
Padres com dreadlocks e camisas de caveira.
Pirarucus de salto alto, vestidos em rosa pink.
Por que não sorvete de tartaruga e doce de almôndegas?
Podia ser uma mulher com dez pernas
e um menino com dois olhos na nuca.
Eu queria que fosse uma lâmpada cantando ópera,
um mosquito criando baratas em cativeiro
ou qualquer outra coisa com um objetivo mais profundo.
Talvez um gigante domador de anões,
um dragão que tosa ovelhas,
um vulcão que tem uma geladeira cheia de refrigerantes.
Podia ser qualquer coisa.
Por isso é um poema.

SIGNIFICADOS

Desconfio que o verso perdeu o nexo.
Há paredes moles subindo pelas escadas.
E o que isso quer dizer? Nada.
Sinto que braços sem ventres e ventres sem cabeças
pendem pesados de árvores,
num pomar com pés de caju e olhos-d’água.
Tenho uma impressão muito forte,
forte como um dedo numa identidade;
uma impressão que há uma verdade circular
circulando nas cabeças meio redondas e meio ovais.
O que foi que aconteceu à humanidade?
Será que como eu já comeu o sentido?
É quase certo que existem lábios fechados pronunciando sensações
como um zumbido de tempos comidos.
Desconfio que meu corpo está em alguns dos versos acima.
Há um clima
de autocanibalismo que primeiro come a língua
e depois come como eu todas as combinações do alfabeto.
Que sentido haverá se eu disser
que o verso perdeu a fé
na poesia?
Há uma azia que bem podia ser um continente,
se eu não tivesse perdido os sons, as grafias e os sentidos.

PALAVRAS

Era um arroubo que foi e que passou.
Que veio e que roubou só um som.
Pena que era um som digno de se ver
pronunciado por lábios atraentes.
E agora o mundo começa com Z e termina em B.
E agora, tão de repente,
a boca não se abre para passar o ar.
Pulmões de partículas pesadas em inércia.
Inércia de palavras pensadas
até chegar ao devaneio
sem nunca concluir para o quê que veio
o cérebro a um mundo pensante.
Daquele momento em diante
era uma era de humanos que erram
em que época se encontram.
Correria de pernas postiças
afundando em charcos atemporais.
Mas era um arroubo universal.
E o clima estava de novo de repente
propício a se transformar em ventos loucos.
Temporais varriam a existência de vogais abertas
a novidades que surgiam.
Era um tempo de verdades arrombadas ao meio-dia,
restando pedaços sem sentido de palavras dilaceradas.
Quem era aquele que entre os pedaços recolhia
membros para construir um corpo?

HUMANIDADE

Último ultimato sem que alguém possa ouvir.
Onde encontrarei terreno fértil?
É terra arrasada!
Foi saqueada em pleno meio-dia.
Moedas enferrujadas cobrem o chão,
porque foi o que restou.
O ouro resplandece nos salões dos conquistadores.
A língua que falava foi cortada e queimada.
Onde encontrarei um ser vivo que expresse a ideia da dor?
Troncos partidos choram o sentimento de estarem quebrados.
Os jardins estão em chamas.
Vasos com labaredas falantes ornamentam as entradas.
Umbrais de ossos rangem em boas-vindas.
Maldições foram registradas com sangue
sobre os muros das vielas.
Onde encontrarei água para alimentar uma semente?
É terra acabada!
Uma estrela tremulou sob o teto,
confabulou sobre ideias de mudanças.
Mas vieram os saqueadores e violentaram a feminilidade.
Porque a força mandava e era obedecida.
Quem com flores poderá derrubar uma torre de marfim?
Há ideias não-potáveis escorrendo azedas pelo chão.
Uma multidão gritava que havia vida,
mas eram lembranças esparsas.
Ventos miasmáticos e sem consistência.
Há cães sem salvação ladrando em desespero,
lambendo as feridas incuráveis.
Há pedras que falam e são ouvidas.
Há dor, mas não há vida.
Porque é terra humana,
da raça que demorou reagir.
É um bola de terra que não tem quem possa dar nome.
Vieram os saqueadores e não houve mais saída.
Não, não há mais vida.

PRETER IDEALISMOJ (traduzido do Esperanto)

Pés que pisam em bombons.
A cada passo, a sola toca um abismo.
Solas de pés que acariciam pedaços de vidro aguçados.
À cada carícia, a pele se torna mais rude.
Peles de solas de pés que se ligam a outras peles
para juntos construírem membranas.
Verdades mansas que voam quiropteramente
e, com uma mordida, um mundo arremessam ao chão.
Dentes de cacau que mastigam vítreos bombons.
Abismos da lonjura de um corpo e solas da amplitude da face da terra.
Carícias de pontas picantes e vaidosos pedaços de virtude delicados como vidro.
Podem bombas de bombons abrirem bons abismos?

DERRETIMENTO HUMANO

O mundo escorria.
Por entre os dedos, escorria aquoso.
Palavras com braços distendidos orbitavam frases sem verbos.
Havia algo desnudo e sem pudor bailando no escuro.
Batidas de tambores eram corações sem sangue.
Meteoros que passavam gritando eram advertências ocas
de velhas moscas moucas
de tanto ouvir o próprio zumbido incontestável.
Vi, e a imagem me horrorizou,
que, em inomináveis curvas de cosmos abaulados,
verbos desprendidos de suas frases originais
pululavam e, em pulos, brincavam com a existência universal.
Havia pontos de luzes que pulsavam pusilânimes.
Havia pus no amarelo que brilhava.
Eram máculas num vácuo palpado por mãos calosas.
Vi que o líquido do mundo, por mim, conhecido
se desconhecia quando desaguava
em águas mais amplas, turvas e turbulentas.
Não havia nome nem memória,
porque as palavras estavam órfãs de verbos rebelados.
Tudo se misturava e se perdia,
se refazia e se repetia sem nexo.
E eu não me vi refletido na massa sem forma.
Meu nome tinha se rasgado em anagramas,
se registrado em papéis de outras pessoas em outras realidades.
Exigi que se conservasse minha individualidade.
Mas o mundo se derretia e eu já era água.
Eu era uma partícula de um mundo aquoso entre dedos.