MORTO SEM LÍNGUA

Tem um caixão na sala.
E um corpo também.
Dizem que o nome é Zamenhof.
Quem foi esse alguém?
Dente de gente morta,
lábio de gente morta,
bochecha de gente morta.
Mas a língua morreu?
Arrancaram o membro que falava
e colocaram num frasco com formol.
Pode uma língua pronunciar sozinha a letra ‘p’ de Polônia?
Olha, a língua do defunto
agora tem o mundo como boca.
A língua tocou os montes de granito,
que tinham bases fixas em maciços gengivais.
Tocou o céu e saiu um gemido celestial.
Mas esse poema não é cristão.
O defunto desceu aos infernos,
porque se cansou dos frios temperados
e queria viver na quentura tropical.
É um defunto que bem podia ser brasileiro.
Por que a boca da terra comeu um morto
que não podia reclamar de ser comido
por terem lhe roubado a língua?