Stato

Acordão nacional

O “grande acordão” do STF, PMDB/PSDB e toda a cambada conservadora continua a todo vapor. E imaginar que às vezes somos ingênuos de acreditar no voto popular. Não, o voto não sobrevive à violência política. Temos apenas uma aparência de democracia. Nesse momento de estresse político, as instituições brasileiras foram colocadas à prova e não resistiram. Mudaram de feição, como um camaleão. – Quem paga o pato? um eco pergunta constantemente. O discurso do combate à corrupção é apenas um véu de hiprocrisia pra encobrir as brigas pelo poder. “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.”

Mas o pior disso tudo, eu constato pela enésima vez, é que a cambada conservadora de políticos não é uma construção artificial. É um reflexo fidedígno da podridão de nossa sociedade. A sociedade brasileira é assim: machista, homofóbica e autoritária, fanaticamente religiosa, preconceituosa com negros e indígenas e xenofóbica com tudo o que não é europeu e branco. Caiam os fundamentos dessa sociedade decrépita! A bolha do macho incontestável se exploda irreversivelmente. A natural imprecisão de gênero e sexualidade se torne evidente para as gerações que vêm à vida. As igrejas sejam fechadas por falta de frequentadores. Os templos sejam transformados em bibliotecas. Os livros sagrados sejam colocados ao lado das obras mitológicas. A negritude e o indigenismo ganhem prestígio. Os elos sul-sul se intensifiquem e os antigos fluxos econômicos-culturais se desvaneçam a uma posição secundária. Que nasça um novo Brasil, porque o que aí está é carne velha.

Citi

Para Inglês ver (citação)

No Brasil, desde sempre, a cultura nunca foi intelectual e argumentativa, mas sempre baseada em duas faces que jogam articuladas: 1. Ideias, instituições e práticas ostensivas para Inglês ver (por exemplo, a adoção de Constituições muito modernas copiadas de países avançados) e, 2) as práticas dissimuladas que fazem o contrário do que pregam as Constituições, ideias e instituições modernas que o país abraça.

Por exemplo, a Constituição enumera até cansar os ideais de igualdade social, de direitos iguais, de acessos, de promoção, etc. Não obstante, o funcionamento normal das instituições, em seu dia a dia, impõe, ao contrário, as práticas desiguais: nepotismo, favorecimento, arbítrio, patriarcalismo, apadrinhamento, pistolão, racismo institucional, etc. etc.

Isso que acontece no Brasil acontece também em outros lugares. Não é exclusividade desse país. Mas aqui, tem-se que admitir, a cultura da dissimulação chega ao extremo. Não é só um método da política ou das relações sociais, é uma espécie de fixação psicótica, de tara psíquica. Tudo que é feito escondido, por trás da visibilidade, e que entra no esquema do “isso fica entre nós dois, não diga nada para ninguém”, ou do “isso morre aqui”, tem um peso muito maior, uma realidade muito mais decisiva, do que as coisas feitas para serem vistas.

E se, para tudo ficar completo, um rebanho de ovelhas inocentes acredita naquilo que se faz para todo mundo ver – coisas como leis e constituições – , enquanto os lobos conspiram e dividem o butim atrás das cortinas, então estamos no Jardim de Éden à brasileira. pra-ingles-ver

Democracia direta, opiniões divergentes e as instituições brasileiras

demokratio-en-la-portugala

Em um dos últimos livros que li (Nekutime pri multio), há um artigo que questiona se a democracia é algo incontestável. Estamos habituados a pensar na democracia como um ser quase que santo, intocável. Mas, parafraseando o autor, há governos que dão liberdade aos seus cidadãos e atendem aos anseios de suas sociedades, mesmo não sendo “estritamente” democráticos.

Um exemplo, é Cuba. O polêmico arquipélago não se alinha com a ideia de que numa democracia os governantes se alternam no poder. A família Castro conseguiu manter-se meio século no comando de Cuba. Aí tem algo que não cheira muito bom, no sentido de alternância democrática. Mas por outro lado, são os cubanos que legitimam o governo. Eles sabem que o governo tem problemas, mas preferem o modelo atual. E não por acaso. Apesar de não ter havido a esperada alternância no poder, Cuba têm um bom sistema de educação e, principalmente, um bom sistema de saúde. Quem poderia imaginar que um país tão pequeno pudesse ser exportador de medicina para o mundo? Não apenas no Brasil, mas em vários países, os médicos cubanos estão presentes. É um país que não chega a ser rico, mas que exporta ajuda humanitária. O Brasil, várias vezes maior que Cuba, não conseguiu tal feito. A China também tem algumas características de governos não-democráticos. A censura do meios de comunicação é um exemplo. Mas não é a China que põe em perigo a hegemonia americana?

Por isso, às vezes pode ocorrer a dúvida: a democracia é sempre a melhor opção para todas as sociedades humanas?

Nossa ideia de democracia começou com os gregos antigos. Eles, os helênicos, são um povo que continua a causar admiração. Mas até que ponto o modelo helênico é válido?

Eu, pessoalmente, penso que a democracia é sempre o melhor lado, mesmo que não seja a melhor opção econômica. No nosso tipo de democracia, reina um sentimento de que, se quisermos de verdade e tivermos ousadia, poderemos pelo voto mudar todo o sistema. Quando não há democracia, resta muitas vezes apenas a resistência armada. Mas quem com prazer coloca em risco a própria integridade física para defender uma causa? Poucos, certamente.

Por isso prefiro a democracia do voto. E quanto mais direta, melhor. Quando a democracia é apenas rasteiramente direta, acontece coisas do tipo que agora ocorrem no Brasil. O uso de meios indiretos para destituir governos passa a ser aceito. Trabalha-se na hipótese de que esse ou aquele governo já não representa o anseio da sociedade. Mas com base em que fontes? Pesquisas com duas, três, dez mil pessoas? É um tanto perigoso supor saber a opinião de 100 milhões de eleitores através da voz de dez mil. Só com muita confiança na fidelidade estatística e na imparcialidade dos institutos de pesquisas, pode-se tomar esses meios como válidos.

E mesmo depois de passar pelo voto, a democracia, da forma que compreendo, não é só a vontade da maioria que, por ter ganhado uma eleição, faz seu ponto de vista se sobrepor. A opinião da minoria também tem de ser ouvida. Democracia é um pátio amplo (uma ágora?), onde todos falam e são ouvidos. A decisão final é uma média de todas as vozes, não apenas das vozes que falaram mais alto.

Democracia é algo difícil, tão difícil como difícil é a comunicação humana. Ora dá certo e todos se entendem. Ora nem tudo vai bem, e mal-entendidos, confusões, inimizades surgem e parecem impossíveis de corrigir. Mas ainda assim é democracia, pois quando os aparentes inimigos se encontram, mais uma vez eles têm o direito de tentar atingir um ponto médio. Na democracia, os dois terão o direito de ouvir e ser ouvido.

Quando não há democracia, mas a situação econômica favorece a todos, calam-se as inimizades aparentemente imperdoáveis. Mas quando a situação vai mal, logo as distensões se mostram. Os que pensam diferente percebem, de repente, que eles não têm o direito de falar e ser ouvido. Dessa constatação à agressão física, falta pouco.

No Brasil, não ocorreu força física para mudar os rumos do governo, mas houve uma agressão subjetiva numa das poucas formas de democracia direta que possuímos: as eleições nacionais. A normalidade do voto nacional foi rompida. Alguns defendem que com razão; outros, que de forma escusa. Quem se vê representado pelas ideias do governo interino, se esforça por defendê-lo e torná-lo legítimo. Isso não seria diferente se houvesse uma autoanálise? Até onde pode ir uma ideia de governo que não passou pelas urnas?

Há um fratura social no Brasil. O afastamento de Dilma não resolve a divisão. Apenas acentua. Somente a democracia direta pode dar uma palavra final à essa crise das instituições brasileiras.