Citi

Citações do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

Página 31:

A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências.

Página 38:

É compreensível, assim, que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim, enquanto povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da Antigüidade clássica. O que entre elas predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.

Página 46:

“Um português” , comentava certo viajante em fins do século XVIII, “pode fretar um navio para o Brasil com menos dificuldade do que lhe é preciso para ir a cavalo de Lisboa ao Porto.”

Página 48:

Dificilmente se acomodavam [os índios] ao trabalho acurado e metódico que exige a exploração dos canaviais. Sua tendência espontânea era para atividades menos sedentárias e que pudessem exercer-se sem regularidade forçada e sem vigilância e fiscalização de estranhos. Versáteis ao extremo, eram-lhes inacessíveis certas noções de ordem, constância e exatidão, que no europeu formam como uma segunda natureza e parecem requisitos fundamentais da existência social e civil. Ou então adaptavam-se só exteriormente, sem adesão íntima, a essas normas “civilizadas”, mais ou menos como um ator desempenha o papel que lhe foi distribuído ou uma criança recita a lição que aprendeu de cor. Foi o que sucedeu, de algum modo, nas velhas missões jesuíticas, onde, após a expulsão dos padres, voltaram os índios, em muitos casos, à sua primeira condição.

Página 56:

…em portaria de 6 de agosto de 1771, o vice-rei do Brasil mandou dar baixa do posto de capitão-mor a um índio, porque “se mostrara de tão baixos sentimentos que casou com uma preta, manchando o seu sangue com esta aliança, e tornando-se assim indigno de exercer o referido posto”.

Página 62:

Apenas o tipo de colonos que eles [os holandeses] nos puderam enviar, durante todo o tempo de seu domínio nas terras do Nordeste brasileiro, era o menos adequado a um país em formação. Recrutados entre aventureiros de toda espécie, de todos os países da Europa, “ homens cansados de perseguições” , eles vinham apenas em busca de fortunas impossíveis, sem imaginar criar fortes raízes na terra.
O malogro de várias experiências coloniais dos Países Baixos
no continente americano, durante o século XVII, foi atribuído em parte, e talvez com justos motivos, à ausência, na mãe-pátria, de descontentamentos que impelissem à migração em larga escala.

Página 92:

O predomínio esmagador do ruralismo, segundo todas as aparências, foi antes um fenômeno típico do esforço dos nossos colonizadores do que uma imposição do meio. E vale a pena assinalar-se isso, pois parece mais interessante, e talvez mais lisonjeiro à vaidade nacional de alguns, a crença, nesse caso, em certa misteriosa “ força centrífuga” própria ao meio americano e que tivesse compelido nossa aristocracia rural a abandonar a cidade pelo isolamento dos engenhos e pela vida rústica das terras de criação.

Páginas 99-101:

Ao contrário da colonização portuguesa, que foi antes de tudo litorânea e tropical, a castelhana parece fugir deliberadamente da marinha, preferindo as terras do interior e os planaltos. Existem, aliás, nas ordenanças para descobrimento e povoação, recomendações explícitas nesse sentido. Não se escolham, diz o legislador, sítios para povoação em lugares marítimos, devido ao perigo que há neles de corsários e por não serem tão sadios, e porque a gente desses lugares não se aplica em lavrar e em cultivar a terra, nem se formam tão bem os costumes. Só em caso de haver bons portos é que se poderiam instalar povoações novas ao longo da orla marítima e ainda assim apenas aquelas que fossem verdadeiramente indispensáveis para que se facilitasse a entrada, o comércio e a defesa da terra.
[…]
…D. João tinha mandado fundar colônias em país tão remoto com o intuito de retirar proveitos para o Estado, mediante a exportação de gêneros de procedência brasileira: sabia que os gêneros produzidos junto ao mar podiam conduzir-se facilmente à Europa e que os do sertão, pelo contrário, demoravam a chegar aos portos onde fossem embarcados e, se chegassem, seria com tais despesas, que aos lavradores “não faria conta largá-los pelo preço por que se vendessem os da marinha”.
A influência dessa colonização litorânea, que praticavam, de preferência, os portugueses, ainda persiste até aos nossos dias. Quando hoje se fala em “interior” , pensa-se, como no século xvi, em região escassamente povoada e apenas atingida pela cultura urbana.

 Páginas 109-110:
Na Bahia, o maior centro urbano da colônia, um viajante do princípio do século XVIII notava que as casas se achavam dispostas segundo o capricho dos moradores. Tudo ali era irregular, de modo que a praça principal, onde se erguia o Palácio dos Vice-Reis, parecia estar só por acaso no seu lugar.
[…]
…o traçado geométrico jamais pôde alcançar, entre nós, a importância que veio a ter em terras da Coroa de Castela: não raro o desenvolvimento ulterior dos centros urbanos repeliu aqui esse esquema inicial para obedecer antes às sugestões topográficas.
[…]
A cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem.
Páginas 116-117:
A fúria centralizadora, codificadora, uniformizadora de Castela, que tem sua expressão mais nítida no gosto dos regulamentos meticulosos — capaz de exercer-se, conforme já se acentuou, até sobre o traçado das cidades coloniais —, vem de um povo internamente desunido e sob permanente ameaça de desagregação. Povo que precisou lutar, dentro de suas próprias fronteiras peninsulares, com o problema dos aragoneses, o dos catalães, o dos euscaros e, não só até 1492, mas até 1611, o dos mouriscos.
[…]
O amor exasperado à uniformidade e à simetria surge, pois, como um resultado da carência de verdadeira unidade.
Portugal, por esse aspecto, é um país comparativamente sem problemas. Sua unidade política, realizara-a desde o século XIII, antes de qualquer outro Estado europeu moderno…

Página 120:

Em todas as principais cidades da América espanhola existiam estabelecimentos gráficos por volta de 1747, o ano em que aparece no Rio de Janeiro, para logo depois ser fechada, por ordem real, a oficina de Antônio Isidoro da Fonseca. A carta régia de 5 de julho do referido ano, mandando sequestrar e devolver ao Reino, por conta e risco dos donos, as “letras de imprensa”, alega não ser conveniente que no Estado do Brasil “se imprimão papeis no tempo presente, nem ser utilidade aos impressores trabalharem no seu ofício aonde as despesas são maiores que no Reino, do qual podem hir impressos os livros e papeis no mesmo tempo em que d ’elles devem hir as licenças da Inquizição e do meu Conselho Ultramarino, sem as quaes se não podem imprimir nem correrem as obras” .

Página 132:

…na capacidade para amoldar-se a todos os meios, em prejuízo, muitas vezes, de suas próprias características raciais e culturais, revelou o português melhores aptidões de colonizador do que os demais povos, porventura mais inflexivelmente aferrados às peculiaridades formadas no Velho Mundo.

Página 142:

Compare-se o sistema de produção, tal como existia quando o mestre e seu aprendiz ou empregado trabalhavam na mesma sala e utilizavam os mesmos instrumentos, com o que ocorre na organização habitual da corporação moderna. No primeiro, as relações de empregador e empregado eram pessoais e diretas, não havia autoridades intermediárias. Na última, entre o trabalhador manual e o derradeiro proprietário — o acionista — existe toda uma hierarquia de funcionários e autoridades representados pelo superintendente da usina, o diretor-geral, o presidente da corporação, a junta executiva do conselho de diretoria e o próprio conselho de diretoria. Como fácil que a responsabilidade por acidentes do trabalho, salários inadequados ou condições anti-higiênicas se perca de um extremo ao outro dessa série.

Página 160:

… os positivistas foram apenas os exemplares mais característicos de uma raça humana que prosperou consideravelmente em nosso país, logo que este começou a ter consciência de si. De todas as formas de evasão da realidade, a crença mágica no poder das idéias pareceu-nos a mais dignificante em nossa difícil adolescência política e social. Trouxemos de terras estranhas um sistema complexo e acabado de preceitos, sem saber até que ponto se ajustam às condições da vida brasileira e sem cogitar das mudanças que tais condições lhe imporiam.

[…]

A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas. E assim puderam incorporar à situa­ção tradicional, ao menos como fachada ou decoração externa, alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos.

Páginas 178-179:

Escapa-nos esta verdade de que não são as leis escritas, fabricadas pelos jurisconsultos, as mais legítimas garantias de felicidade para os povos e de estabilidade para as nações. Costumamos julgar, ao contrário, que os bons regulamentos e a obediência aos preceitos abstratos representam a floração ideal de uma apurada educação polí­tica, da alfabetização, da aquisição de hábitos civilizados e de outras condições igualmente excelentes.
[…]
Nesse erro se aconselharam os políticos e demagogos que chamam atenção freqüentemente para as plataformas, os programas, as instituições, como únicas realidades verdadeiramente dignas de respeito. Acreditam sinceramente que da sabedoria e sobretudo da coerência das leis depende diretamente a perfeição dos povos e dos governos

Página 182:

As constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e oligarquias, são fenômeno corrente em toda a história da América do Sul. É em vão que os políticos imaginam interessar-se mais pelos princípios do que pelos homens: seus próprios atos representam o desmentido flagrante dessa pretensão.

Stato

Acordão nacional

O “grande acordão” do STF, PMDB/PSDB e toda a cambada conservadora continua a todo vapor. E imaginar que às vezes somos ingênuos de acreditar no voto popular. Não, o voto não sobrevive à violência política. Temos apenas uma aparência de democracia. Nesse momento de estresse político, as instituições brasileiras foram colocadas à prova e não resistiram. Mudaram de feição, como um camaleão. – Quem paga o pato? um eco pergunta constantemente. O discurso do combate à corrupção é apenas um véu de hiprocrisia pra encobrir as brigas pelo poder. “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.”

Mas o pior disso tudo, eu constato pela enésima vez, é que a cambada conservadora de políticos não é uma construção artificial. É um reflexo fidedígno da podridão de nossa sociedade. A sociedade brasileira é assim: machista, homofóbica e autoritária, fanaticamente religiosa, preconceituosa com negros e indígenas e xenofóbica com tudo o que não é europeu e branco. Caiam os fundamentos dessa sociedade decrépita! A bolha do macho incontestável se exploda irreversivelmente. A natural imprecisão de gênero e sexualidade se torne evidente para as gerações que vêm à vida. As igrejas sejam fechadas por falta de frequentadores. Os templos sejam transformados em bibliotecas. Os livros sagrados sejam colocados ao lado das obras mitológicas. A negritude e o indigenismo ganhem prestígio. Os elos sul-sul se intensifiquem e os antigos fluxos econômicos-culturais se desvaneçam a uma posição secundária. Que nasça um novo Brasil, porque o que aí está é carne velha.

Stato

Reformar o Brasil

Como que podem querer reformar a educação brasileira assim de repente? Por que que Temer e aliados se sentem legitimados de serem os “reformadores” do país? Essa é apenas a primeira de outras tentativas de grandes reformas que estão a caminho. Grandes mudanças sem grandes debates. Grandes reorientações nos destinos do país, sem que tenha acontecido participação do voto direto. Temer não foi eleito vice com a ideia de país que agora está implantando. Não houve apenas a retirada de uma presidenta. Está ocorrendo um giro de 180 graus nos rumos da nação. Até onde poderão atuar sem que haja insurreição? Dorme o país e as panelas estão em silêncio, pois os que batiam panelas nem sequer deixam que seus filhos ponham os pés em uma escola pública. Que se reforme a educação de cima pra baixo, sem que seja ouvida a base do iceberg. A raiva política foi saciada. As arbitrariedades, as convicções pessoais dos grupos que canalizaram o ódio encontram agora uma aprovação macia da indiferença.

Stato

Ŝati eksterlandanojn

Antaŭ iom da tempo mi diris, ke en Brazilo ŝovinismo malfacile trovus lokon, ĉar brazilanoj ŝategas eksterlandanojn. Kiam brazilano vidas eksterlandanon, li/ŝi tuj volas esti proksima. Brazilanoj “algluiĝas” al eksterlandanoj. Havi eksterlandajn amikojn estas ŝika afero en Brazilo. Tion kaŭzas la relativa hermetikeco de la lando. Brazilanoj malofte renkontas eksterlandanojn. Kiam ili renkontas iun, ili volas tuj akapari la predon.
Tamen nun mi preferas precizigi mian penson: tre mafacile eblas, ke brazilano malamu vin se vi estas eksterlandano blanka kaj bela. Kaj beleco ofte signifas blondajn harojn aŭ/kaj klarajn okulojn. Se vi estas nigrulo, viaj ŝancoj esti entuziasme akceptita estas malgrandaj. En la urbo kie mi loĝas estas multe da afrikaj enmigrantoj (ĉefe el Senegalio), sed tre rare mi vidis lokanon entuziasme algluiĝintan al unu el tiuj. Ĉu ĉar ili estas malriĉaj? Ne! Se temus ekzemple pri eŭropano kiu estas malriĉega, sed blonda kaj bluokula, jen rapide li/ŝi tuj trovus beleco-hirundojn.
Citindas, ke landinterne la afero statas alie. Ni havas multe da interŝtataj antaŭjuĝoj, eĉ se multaj brazilanoj apenaŭ konas alian ŝtaton.

Citi

Para Inglês ver (citação)

No Brasil, desde sempre, a cultura nunca foi intelectual e argumentativa, mas sempre baseada em duas faces que jogam articuladas: 1. Ideias, instituições e práticas ostensivas para Inglês ver (por exemplo, a adoção de Constituições muito modernas copiadas de países avançados) e, 2) as práticas dissimuladas que fazem o contrário do que pregam as Constituições, ideias e instituições modernas que o país abraça.

Por exemplo, a Constituição enumera até cansar os ideais de igualdade social, de direitos iguais, de acessos, de promoção, etc. Não obstante, o funcionamento normal das instituições, em seu dia a dia, impõe, ao contrário, as práticas desiguais: nepotismo, favorecimento, arbítrio, patriarcalismo, apadrinhamento, pistolão, racismo institucional, etc. etc.

Isso que acontece no Brasil acontece também em outros lugares. Não é exclusividade desse país. Mas aqui, tem-se que admitir, a cultura da dissimulação chega ao extremo. Não é só um método da política ou das relações sociais, é uma espécie de fixação psicótica, de tara psíquica. Tudo que é feito escondido, por trás da visibilidade, e que entra no esquema do “isso fica entre nós dois, não diga nada para ninguém”, ou do “isso morre aqui”, tem um peso muito maior, uma realidade muito mais decisiva, do que as coisas feitas para serem vistas.

E se, para tudo ficar completo, um rebanho de ovelhas inocentes acredita naquilo que se faz para todo mundo ver – coisas como leis e constituições – , enquanto os lobos conspiram e dividem o butim atrás das cortinas, então estamos no Jardim de Éden à brasileira. pra-ingles-ver

Democracia direta, opiniões divergentes e as instituições brasileiras

demokratio-en-la-portugala

Em um dos últimos livros que li (Nekutime pri multio), há um artigo que questiona se a democracia é algo incontestável. Estamos habituados a pensar na democracia como um ser quase que santo, intocável. Mas, parafraseando o autor, há governos que dão liberdade aos seus cidadãos e atendem aos anseios de suas sociedades, mesmo não sendo “estritamente” democráticos.

Um exemplo, é Cuba. O polêmico arquipélago não se alinha com a ideia de que numa democracia os governantes se alternam no poder. A família Castro conseguiu manter-se meio século no comando de Cuba. Aí tem algo que não cheira muito bom, no sentido de alternância democrática. Mas por outro lado, são os cubanos que legitimam o governo. Eles sabem que o governo tem problemas, mas preferem o modelo atual. E não por acaso. Apesar de não ter havido a esperada alternância no poder, Cuba têm um bom sistema de educação e, principalmente, um bom sistema de saúde. Quem poderia imaginar que um país tão pequeno pudesse ser exportador de medicina para o mundo? Não apenas no Brasil, mas em vários países, os médicos cubanos estão presentes. É um país que não chega a ser rico, mas que exporta ajuda humanitária. O Brasil, várias vezes maior que Cuba, não conseguiu tal feito. A China também tem algumas características de governos não-democráticos. A censura do meios de comunicação é um exemplo. Mas não é a China que põe em perigo a hegemonia americana?

Por isso, às vezes pode ocorrer a dúvida: a democracia é sempre a melhor opção para todas as sociedades humanas?

Nossa ideia de democracia começou com os gregos antigos. Eles, os helênicos, são um povo que continua a causar admiração. Mas até que ponto o modelo helênico é válido?

Eu, pessoalmente, penso que a democracia é sempre o melhor lado, mesmo que não seja a melhor opção econômica. No nosso tipo de democracia, reina um sentimento de que, se quisermos de verdade e tivermos ousadia, poderemos pelo voto mudar todo o sistema. Quando não há democracia, resta muitas vezes apenas a resistência armada. Mas quem com prazer coloca em risco a própria integridade física para defender uma causa? Poucos, certamente.

Por isso prefiro a democracia do voto. E quanto mais direta, melhor. Quando a democracia é apenas rasteiramente direta, acontece coisas do tipo que agora ocorrem no Brasil. O uso de meios indiretos para destituir governos passa a ser aceito. Trabalha-se na hipótese de que esse ou aquele governo já não representa o anseio da sociedade. Mas com base em que fontes? Pesquisas com duas, três, dez mil pessoas? É um tanto perigoso supor saber a opinião de 100 milhões de eleitores através da voz de dez mil. Só com muita confiança na fidelidade estatística e na imparcialidade dos institutos de pesquisas, pode-se tomar esses meios como válidos.

E mesmo depois de passar pelo voto, a democracia, da forma que compreendo, não é só a vontade da maioria que, por ter ganhado uma eleição, faz seu ponto de vista se sobrepor. A opinião da minoria também tem de ser ouvida. Democracia é um pátio amplo (uma ágora?), onde todos falam e são ouvidos. A decisão final é uma média de todas as vozes, não apenas das vozes que falaram mais alto.

Democracia é algo difícil, tão difícil como difícil é a comunicação humana. Ora dá certo e todos se entendem. Ora nem tudo vai bem, e mal-entendidos, confusões, inimizades surgem e parecem impossíveis de corrigir. Mas ainda assim é democracia, pois quando os aparentes inimigos se encontram, mais uma vez eles têm o direito de tentar atingir um ponto médio. Na democracia, os dois terão o direito de ouvir e ser ouvido.

Quando não há democracia, mas a situação econômica favorece a todos, calam-se as inimizades aparentemente imperdoáveis. Mas quando a situação vai mal, logo as distensões se mostram. Os que pensam diferente percebem, de repente, que eles não têm o direito de falar e ser ouvido. Dessa constatação à agressão física, falta pouco.

No Brasil, não ocorreu força física para mudar os rumos do governo, mas houve uma agressão subjetiva numa das poucas formas de democracia direta que possuímos: as eleições nacionais. A normalidade do voto nacional foi rompida. Alguns defendem que com razão; outros, que de forma escusa. Quem se vê representado pelas ideias do governo interino, se esforça por defendê-lo e torná-lo legítimo. Isso não seria diferente se houvesse uma autoanálise? Até onde pode ir uma ideia de governo que não passou pelas urnas?

Há um fratura social no Brasil. O afastamento de Dilma não resolve a divisão. Apenas acentua. Somente a democracia direta pode dar uma palavra final à essa crise das instituições brasileiras.

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Favelas do Rio de Janeiro (e do Brasil)

Certamente é preciso valorizar o que somos, mesmo quando não atendemos, por força da realidade, os requisitos de prestígio social. Por outro lado, é preciso também ter cuidado para não darmos demasiado valor à essa realidade excludente, sob risco de nos acosturmamos ao incorreto ao ponto de tomá-lo como natural e aceitável, de criarmos mecanismos para afastar a resistência, de passarmos a achar que, se nada muda, é porque nada podemos fazer para mudar.

 

“Privatizar tudo o que for possível”

Na ânsia de saciar a indignação merecida contra o PT, o Brasil está trocando um governo ruim por algo bem pior. Fico me perguntando se aqueles que apoiavam a saída a qualquer preço do governo Dilma estão acompanhando o que o governo interino promete fazer ao se tornar definitivo.

Desinvestimento (com risco real de privatização) nas universidades públicas e no SUS. Fortalecimento da área mais tradicional do congresso, ligada a clérigos políticos. Possível substituição de um sistema presidencialista por um parlamentarista, ou seja, um país onde o congresso (os dignos deputados daquela ignóbil votação em nomes dos familiares…) não só legisla mas tem controle direto sobre o executivo. Desinteresse na continuação da integração sul-americana. Alinhamento quase que incondicional aos Estados Unidos.

Era essa mesma a intenção das panelas que faziam barulho? Ou deram um cheque em branco para um presidente sem um plano antecipadamente conhecido e votado nas urnas? Michel Temer foi eleito junto com Dilma, mas mostra claramente que vai na contramão do que o governo petista acha ser a melhor ideia de Brasil.

“Privatizar tudo o que for possível” disse Michel Temer em claro e bom som. Em outras palavras: entregar ao setor privado as riquezas nacionais, na esperança de que o mercado se mostre capaz de resolver os problemas que nos assolam. Alguém consegue imaginar um governo sendo eleito com esse discurso?

Citi

…o aniquillamento das formulas conhecidas das linguas romanas.

Diario do Commercio, Rio de Janeiro – RJ, sabbado, 16 de novembro de 1889

Alguém por favor me diz quem foi que enviou esse pequeno anúncio  e também o que é e como se dará…

“…o aniquillamento das formulas conhecidas das linguas romanas”

DIARIO DO COMERCIO, NOVEMBRO DE 1889

 

O Pharol, Juiz de Fora – MG, domingo, 17 de novembro de 1889

o pharol

 

A Federação, Porto Alegre – RS, quinta-feira, 19 de dezembro de 1889

a federação

Mencio

Editorial d’ O Globo: ridiculamente mesquinho

É inacreditável que, do alto de suas nove décadas, O Globo se preste ao papel de publicar um editorial dessa mesquinheza. Seja qual for o governo, nunca estará errado o investimento em educação. Tentar tornar pequeno o CsF com base no argumento do tipo “devia ter usado o dinheiro em outro lugar” ou do tipo “não tem dinheiro pra isso” é algo tão triste que não sei se consegui ler nos últimos dias uma apologia a uma ideia mais vil e desprezível.

E é ainda pior quando constatamos que “falta de dinheiro” se tornou sinônimo de “falta de recursos”. Que seja proibido, num país tão rico em recursos, que qualquer governo brasileiro diga que faltam recursos para educação! Diminuir recursos nessa área devia ser algo a ser feito apenas em casos terrivelmente calamitosos. Enquanto milionários e bilionários brasileiros constroem seus paraísos no Brasil e mundo afora, como ousam falar em falta de recursos! Os interesses de pequenas famílias brasileiras continuam a se sobrepor aos interesses do país.

Seria preferível apenas uma pitadinha de ousadia por parte do governo para aprovar e fazer valer um aumento nos impostos daqueles brasileiros que ganham mais que 1 milhão por mês. Apenas essa ousadia e haveria dinheiro para custear muito mais do que o montante que o CsF pretendeu.

Editorial do Jornal O Globo sbre o fim do CsF, de 31 de julho de 2016

Editorial do Jornal O Globo sobre o fim do CsF, de 31 de julho de 2016